Quando era criança fui passar as férias em Portugal e ao chegar lá fiquei sabendo que existia uma bruxa morando na vila, bem perto da casa da minha avó paterna. Brincando no jardim avistei a velha senhora e fui instintivamente conversar com ela, que virou-se para mim e deu um sorriso caloroso - mesmo com a falta de alguns dentes em sua boca. Pude perceber o quanto era simples seu jeito e também o quanto sua vida foi sofrida pela sua forma de se expressar. Não senti receio, nem aversão, mas uma admiração muito natural por aquela senhora, que se mostrava para mim sem medo e de uma maneira tão simpática. Começou a conversar comigo e a me dizer que sou uma pessoa muito abençoada, uma bruxinha também e que certamente minha magia iria se manifestar quando enxergasse meus dons, que a união de talento e amor viriam em forma de passagem do lado interno para o externo. Aquelas palavras eu nunca esqueci, apesar de não encontrar durante muito tempo a razão delas. Com o tempo, visitei Portugal e soube que aquela senhora - tão temida pela ignorância de muitos na região - havia falecido e comecei a refletir sobre o que ela me contou naquele encontro. De súbito percebi que o momento onde coloco a minha essência para fora, espalhando-a para o mundo é quando cozinho. Me dei conta que o meu lado mágico é demonstrado quando encontro a minha varinha - também chamada de colher de pau (madeira, material muito nobre, que já foi entalhado para enfrentar rios, mares e oceanos!). Meus encantos crescem e conquistam com aromas, especiarias e essências, numa mistura de sabores e sons que tornam o meu ambiente uma profusão de beleza e cor. Ano passado fiz um curso no restaurante da Roberta Sudbrack chamado "teach and dinner" e ao final, todos os participantes recebiam uma colherzinha de pau com a assinatura da querida chef. Depois de um tempo, conheci uma pessoa muito especial no meio da gastronomia, a chef de cozinha Cris Leite, que me disse: "Rachel, você tem mãos de cozinheira". Nesse momento, eu percebi como a vida se comunica conosco por sinais. Era um presente realmente abençoado e que significava muito mais do que uma simples lembrança. Era um despertar de algo muito maior, que havia nascido comigo e precisava vir à tona. Comecei então a criar inúmeras artes na cozinha e buscar ingredientes e preparo para aprimorar cada vez mais o meu conhecimento culinário. Minha vontade de fazer cursos cresceu, me senti realmente tocada por algo maior. Como se tivesse descoberto a razão de tudo aquilo. Hoje eu agradeço àquela senhora, aos contornos que a vida dá, aos segredos desvendados e a todos que foram instrumentos do destino durante a caminhada. Blessed be.
